Medida válida por 150 dias cria janela de oportunidade para escoar produção; especialistas veem recuperação da competitividade nacional com isenção de itens como café, carnes e celulose.
A insegurança comercial provocada pela novela das tarifas de Donald Trump pode levar a uma antecipação de exportações para os Estados Unidos para aproveitar a aparente normalidade da mais recente decisão, que impôs uma tarifa global de 10% sobre as importações, com validade de 150 dias.
Trump impôs as tarifas após a Suprema Corte declarar que as anteriores, decretadas em abril do ano passado, eram ilegais. Naquela ocasião, houve uma corrida diplomática dos países e das empresas para tentar negociar novos percentuais – o Brasil chegou a ter tarifa de 50%, por exemplo, e a justificativa era uma suposta perseguição política devido ao andamento do processo legal contra o ex-presidente Jair Bolsonaro.
Assim que a Suprema Corte derrubou as tarifas, na semana passada, Trump se apoiou na Seção 122 da Lei de Comércio de 1974, que permite tarifas de até 15%. Inicialmente, este foi o percentual anunciado e, depois, Trump afirmou que ficaria em 10%.
A insegurança geral faz com que a regra atual seja, pelo menos, um indício de normalidade – ao menos durante a validade de 150 dias. Isso trouxe alívio relativo e deve provocar uma “corrida” de exportações nos próximos meses.
Antecipação de embarques
Segundo Verônica Cardoso, economista da LCA Consultores, o mercado deve observar um movimento imediato de aceleração nas vendas para os Estados Unidos. “O que tende a acontecer é que os compradores americanos aproveitem esse período com uma tarifa mais baixa para fazer um adiantamento de compras”, explica Cardoso. Para a economista, pode haver um “aumento expressivo das nossas exportações” visando antecipar o cenário pós-150 dias, quando Trump poderá buscar novas brechas legais para elevar as taxas.
Essa dinâmica de antecipação não é inédita. O movimento repete o padrão observado em julho do ano passado, quando o anúncio de um “tarifaço” gerou um pico de embarques antes da vigência das novas taxas. A percepção é compartilhada por Igor Fernandez de Moraes, sócio do Silva Nunes Advogados e especialista em Direito do Agronegócio, que orienta seus clientes a escoar a produção represada. “A tendência é que realmente os produtores e os importadores ou antecipem ou escoem a produção que estava contratada, mas que ainda não tinha sofrido saída do país por conta da exorbitância das tarifas que até então estavam vigentes”, afirma.
O ‘benefício’ brasileiro na guerra comercial
Embora uma sobretaxa de 10% soe negativa, no contexto da guerra comercial travada por Trump, o Brasil emerge em uma posição comparativamente vantajosa. Em 2024, o país foi um dos mais afetados pela política de reciprocidade, enfrentando alíquotas que, em determinado momento, estiveram acima das praticadas contra a China.
Com a nova medida, todos os parceiros comerciais dos EUA passam a ser taxados linearmente, o que, na visão dos analistas, devolve a competitividade baseada na eficiência produtiva, e não em penalidades tarifárias.
Fonte: https://www.infomoney.com.br/economia/tarifas-trump-antecipacao-exportacoes-brasil-eua/